Diz o ditado “Golden Rule: He Who Has the Gold Makes the Rules”. Isto é mercado puro, que não existe em lado algum. Muito embora, sob o pano, debaixo da mesa, não deixe de ser verdade.
No início do Séc. XX, o modelo de mercado puro, ou perto disso, deu provas da sua fragilidade com a Grande Depressão no final dos anos 20. Uma lição que se tirou daí foi que os Estados não podiam deixar “cair” o mercado, sob pena de terem de “reconstruir” as economias locais. Foi o que aconteceu nesta depressão actual. Porém, há um lado perverso neste paradigma, e que se demonstrou na mais recente crise: se um prevaricador tiver uma dimensão significativa, ele não vai ser deixado desprotegido. Isto significa que há um benefício do infractor, e esse será tanto mais garantido quanto maior for o peso do infractor na sociedade. Dir-se-ia que onde se pedia responsabilidade, dá-se subsídio. E aproxima-se de um modelo muito normal entre nós, Portugueses, que se pode resumir a “benefício privados, prejuízos públicos”.
Dizem os gurus do mercado que o Estado Português não deixou que o mercado funcionasse no caso da PT. Errado, o mercado funcionou. Acontece que um dos intervenientes, por acaso o que tem direito de veto, não achou que o encaixe financeiro justificava a perda de competitividade internacional de uma empresa com elevado potencial empregador de know-out qualificado, com uma forte ligação à investigação neste país e com grande potencial exportador de soluções de cariz tecnológico. Isto é mercado, simplesmente quem avaliou os prós-e-contras da venda foi uma entidade, um Estado, um governo, que não se preocupa apenas com lucros mas que se tem de preocupar com pessoas e com o futuro delas. É claro que os fundos financeiros não pensam desta forma, mas o estado Português não tem de se preocupar com os mesmos. E se não estão satisfeitos, podem já começar a vender a sua participação na PT.
Dizem os gurus do mercado que o Estado Português quebrou as regras do jogo. Acho curioso o emprego desta palavra, jogo, porque para esses gurus tudo isto não passa de uma espécie de brincadeira, como se não estivesse envolvido nestas compras e vendas o futuro de muitas pessoas. Danos colaterais, dirão outros gurus. Adiante. Mas o Estado não quebrou as regras de jogo algum, a golden share sempre existiu, não foi criada de propósito para esta situação. Quem tem acções da PT sempre soube que existia uma espada de Dâmocles, chamada golden share, sobre o poder dessas acções. Acabar agora com a golden share é que é alterar as regras do jogo.
O BES, o membro mais forte do núcleo duro que controla a PT, fez a sua escolha estratégica e mostrou que, claramente, não se importa de hipotecar o capital inovador de Portugal e o peso estratégico da PT para resolver alguns problemas internos de liquidez. Pois bem, se alguma tiver que desaparecer, antes o BES que a PT. Porque com amigos destes, venham os inimigos.
Leituras
Há 59 minutos
André, mais uma vez, os meus parabéns por mais este artigo!
ResponderExcluirA Golden Share do Estado na PT já existe há muito tempo e foi criada com o intuito de não permitir que o poder de decisão na Empresa se afastasse do nosso país.
Então e agora que foi finalmente usada critica-se?
A decisão de vender ou não a Vivo era muito importante para a PT, pois esta significa 45% das receitas, 40% dos lucros, 80% dos clientes da PT. (um àparte como é que 80% dos clientes rende apenas 40% dos lucros? Isso quer dizer que os outros 20% fazem render 60%. Conclusão: Estamos a pagar muito pelas nossas chamadas!)
Se a Vivo for vendida, então a PT fica sem a sua galinha dos ovos de ouro e caminhará facilmente para o abismo! Será que os accionistas da PT defenderam a empresa naquela reunião de accionistas? Ou defenderam somente os seus interesses?
Temos que combater esta ideia que está a instalar-se na nossa sociedade de que os lucros são privados e de que os prejuízos são públicos!
Uma vez mais, obrigado Betxu!
ResponderExcluirQuando à disparidade clientes vs. lucros, posso adiantar duas hipóteses (que não são mesmo mais do que isso): mais clientes empresariais em Portugal, que rendem mais, e menor custo de vida no Brasil , que pode justificar tarifários mais económicos, com menores margens, no Brasil.
Comecei por escrever um comentário, mas acabou num novo post :D
ResponderExcluir