terça-feira, 15 de junho de 2010

Uma barulheira mundial

Houve uma mente, seguramente iluminada, que resolveu promover um instrumento musicalmente medíocre, a vuvuzela, a símbolo de apoio aos jogos deste Mundial. Tal mente esqueceu-se, ou talvez não, que a vuvuzela de um Sul-Africano em nada se distingue da vuvuzela de um Alemão: ambas produzem o mesmo som monótono e horrível. Tal mente esqueceu-se, ou talvez não, que, se a vuvuzela se destina a apoiar alguém quando está a jogar, esse alguém não sabe se a vuvuzela o está a apoiar ou a tentar fazer exactamente o contrário. Isso é evidente em todos os jogos, onde o ruído de fundo das vuvuzelas, permanente, homogéneo, constante, não traz qualquer valor acrescentado ao espectáculo, antes pelo contrário. Desapareceram os cânticos, abafados pela barulheira. Desapareceram os gritos de frisson ou susto, esmagados pela chinfrineira. Desapareceu a emoção expressa pelas claques, subjugada por um ruído inumano.

Há uma tira do Asterix e Cleópatra, copiada abaixo, que resume bem o que penso sobre as vuvuzelas.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Inquisição

Se antigamente havia caça ás bruxas, hoje há caça aos homossexuais. É estranho afirma-se uma nova inquisição, mas parece-me que o Cardeal de Lisboa assim o quer ou, talvez, os conservadores não querem ver o País retirado da ignorância, da decadência, da mísera cultural, entre outros. E o passo tomado, que para muitos forçado, do Presidente da República só vem demonstrar que o País encontra-se numa mudança cultural e social, que só beneficiamos contra uma sociedade que pretende ser futurista, mas completamente influenciada por ideias arcaicas.

No jornal i, que leio online, li esta notícia: http://www.ionline.pt/conteudo/61991-conservadores-chocados-com-cavaco-reeleicao-em-risco. Fiquei, diremos, chocada com as reacções não só das pessoas relatadas na notícia, mas também pelos comentários publicados na página, ao ponto de uma santa criatura merecer um comentário meu. O que me supreende nos comentários é a escassez de valores e de igualdade que muitos tentam passar como seguidores da igreja, sendo esta igreja ano após ano repleta de escândalos.
E o que me revolta é ver que este é o Portugal que temos. Um Portugal sem educação, sem moral, com pseudo valores cristão e sem cultura. Enoja-me ler comentários como “não consigo viver na mesma comunidade de 2 homossexuais” ou “aberrações”, sem esquecer que quem acusa torna-se no acusado, ou seja, passa a ser este a aberração, e ver uma igreja que se esquece que vivemos num Estado Laico, onde existe separação entre o Estado e a Religião, embora alguém se esqueceu de dizer isso ao Cardeal e ao padre jesuíta, de influência católicas, passo-o a citar: “Senti um arrepio, quase vómito, quando acabei de ouvir o Prof. Cavaco Silva. Que vergonha, senti. Por ele, claro. E pelo país. Assim ficou para a história como o padrinho (the best man) dos homossexuais, por incoerência da sua decisão…”. A história ensina sempre muito a quem quer e penso que se esqueceram da antiga Grécia, onde a maioria dos atenienses era bissexual e são os pais da sociedade e da cultura.

Sobre Cavaco Silva pouco se pode dizer, esteve mal na promulgação da lei, não porque não seja correcto o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, mas porque deu a parecer que tinha sido forçado a assinar algo que não queria. Sempre vi o Cavaco Silva como um Presidente um pouco apático e com discursos filosóficos, perdendo a sua força ao longo destes anos com o apoio dado a algumas das “obras” do governo.
Incentiva o pensamento de que o cargo de Presidente da República é somente um cargo simbólico e com poderes limitados, embora importantes. A questão devia ser colocada na revisão da constituição para alterar alguns estatutos que reduzes o seu campo de actuação, por exemplo o veto, pois só pode vetar uma vez uma lei e o novo estatuto dos açores. Por isso penso que o Sr. Presidente ainda tem oportunidade para ganhar, pois não encontro, neste momento, candidato tanto à esquerda como à direita com capacidade para ocupar este cargo.

Por fim, o mundo desenvolve-se, adapta-se e morre como todos os seres humanos, ou seja, o mundo é um ser humano. Fere o sentimento comum pela não existência, ou pseudo existência, de medidas anti-discriminação quando existe discriminação em páginas de internet, nas páginas sociais, em casa, nas ruas, na vida, sendo facilmente aplicadas através de uma pequeníssima actuação da justiça. E vê-se políticos na televisão a combater euforicamente a discriminação, embora sem aceitarem essas ideias que defendem. Mais uma herança da continuação da sociedade arcaica de Salazar, afinal ainda não morreu.

sábado, 22 de maio de 2010

Para além do Mourinho...

Quero deixar aqui o convite para todos os amantes do Desporto que visitem o novo projecto que estou a começar... paralemdomourinho.blogspot.com
Não é para ser apenas mais um blogue sobre futebol, mas sim um blogue sobre o Desporto, onde pretendemos mostrar os bons exemplos de bons desportistas, dos hinos ao desporto e onde toda a opinião irá contar.

Hoje, o assunto do dia será a grande Final da Liga dos Campeões, onde o nosso "patrono" irá fazer-nos lembrar belos momentos vividos a 26 de Maio de 2004.

Deixo-vos aqui o convite para nos fazerem uma visita, deixarem o vosso comentário ou a vossa opinião sobre o jogo de hoje!

Obrigado!

Opinião Política

Analisar a situação do País, numa época de crise, é como um médico a receitar medicação e essa medicação passa por uma análise dos sintomas da doença que afecta o Estado, na tentativa de identificação do problema em causa e o seu tratamento. Quando falamos num Estado a sua situação provém de inúmeras razões provenientes ora de uma situação de instabilidade social, economica ou política. Essa resolução passa por um tratamento da irradiação da problemática do sistema, embora o seu ciclo se tenha extinto e é necessário injectar novas resoluções para um caso comum.

Os médicos num Estado são os políticos, ou seja, os representantes legais do povo e são os mesmo que procuram identificar e corrigir as fraquezas do sistema. E se o sistema terminou o seu ciclo há que estimular a procura de novas políticas e implantação de outro regime. E quando existe inúmeras tentativas de exterminação de um vírus que nos consome à 30 anos temos que encontrar as razões das suas receitas não provocarem efeito. O uso da desculpa da crise internacional não é maneira de justificar os erros, pois vivemos em democracia e em 36 anos de liberdade vivemos 30 anos em crises orçamentais, sem excedentes e só demonstra que as políticas dos sucessivos governos não tem alterado os resultados das analíses ao Estado, tornando claro que os meios não justificam os actos.

Olhando de fora, numa visão externa, a salvação das contas públicas, através de criação de medidas como aumento de impostos e os pseudo cortes das despesas, torna claro que, para os médicos, é de extrema importância criar investimentos públicos como o TGV numa época de contenção orçamental, o que não compreendo numa Europa onde a onda é de contenção nos investimentos públicos. Compreendo a visão do Governo de criação de infra-estruturas para um futuro de um País afugado em dívidas, embora haja que ter contenção na altura do investimento. E neste momento cortes nas despesas logo vê-se, mas o principal é atacar com políticas fiscais na tentativa de criar confiança no mercado Português.

Na minha visão ignorante dos problemas actuais, julgo que o pilar dos problemas do país chama-se corrupção e somos catalogados, internacionalmente, como um País com problemas ao combate à corrupção. E apesar dos debates em volta desta questão somente são palavras dirigidas ao vento, porque em real causa não tem havido progressos nessa matéria. Vejamos as pseudas comissões, onde se debate se terá ou não o governo actuado para a compra de um canal televisivo, enquanto questões de cariz de extrema importância são limpos das mentes de quem realmente detém o poder. Senão criamos neste momento mecanismos de combate, em conjunto com as medidas de austeridade, não prevejo credibilidade no mercado e automaticamente a retirada de confiança dos investimentos externos.

Somente após uma "revolução" do sistema, isto é, a revisão total do sistema jurídico e também administrativo, podemos ver com clareza onde temos que actuar de imediato. E a realidade cruel é que temos que olhar para o País como principal objectivo e não preocuparmos em mostrar a Europa que somos o primeiro a criar riqueza. Vejamos que é um insulto haver taxação sobre bens de primeira necessidade, quando existe um salário mínimo aquém da média europeia e questiono onde irão buscar os mais carenciados dinheiro para pagar os aumentos dos impostos.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A Teoria dos Estados Concorrentes

[Nota prévia: esta divagação é um pouco fantasiosa demais para a "linha editorial" deste blogue, mas tive de o colocar como postagem porque era demasiado grande para ser um comentário. Espero que o tolerem.]

No seguimento duma deixa que o Diogo Ferreira plantou num comentário ao último "apedrejamento", eu vou aproveitar para apresentar a Teoria dos Estados Concorrentes. Antes de mais, vamos clarificar dois conceitos essenciais à discussão: Governo e Estado. Ao Governo é permitido administrar, durante 4 anos, o Estado. O Estado, nas palavras do sr. militar que se nos dirigiu no meu Dia da Defesa Nacional, "o Estado somos todos nós".

Para a nossa pacífica diatribe, eu vou pegar em duas visões do Estado mais redutoras que a anterior. A primeira é a perspectiva do cidadão comum: o Estado é um mero prestador de serviços. A única razão pela qual se liga minimamente ao Estado é para usufruir da educação e dos serviços de saúde que ele proporciona. A segunda visão é uma definição de Estado mais formal e "politicamente correcta": uma instituição que zela pelo bem e interesses das pessoas que habitam num pedaço de terreno. Nada mais.

Assim sendo, se nos restringirmos a esta última definição, eu pergunto: mas não podem então haver dois Estados a gerir o mesmo território? Só para termos por onde começar, o recrutamento de cidadãos seria algo assim: sempre que nascesse uma criança, estariam à cabeceira da cama da mãe dois senhores engravatados, um de cada lado. Cada um deles pertenceria a um dos Estados, e tentaria convencer a mãe a tornar o filho cidadão do Estado que representam, aliciando-a com melhores serviços de saúde, de educação, etc. A mãe tomaria uma decisão informada, e um dos Estados contaria com mais um cidadão, dessa forma fortalecendo-se (um cidadão de cada vez).

Cada um destes Estados teria os seus próprios hospitais, as suas próprias escolas, as suas próprias estradas, etc. Suponham que era preciso construir uma auto-estrada Porto-Lisboa. Fár-se-ia um concurso e um dos Estados ganharia a concessão. Notem que com a concessão viriam não só os lucros decorrentes da exploração, mas também mais poder e influência sobre o território, e como tal maior poder de atracção de novos cidadãos e persuasão sobre o Estado concorrente.

Mas agora a pergunta que vocês estão a colocar é: "Mas nesse caso, teremos tudo a dobrar. A mesma zona terá de ser servida por dois hospitais, um para cada um dos Estados. Isso parece um desperdício de recursos." Bem, mais ou menos. A solução passaria pelo seguinte: sempre que um dos Estados quisesse construir uma nova infraestrutura (por exemplo, um hospital), submeteria o pedido a uma entidade independente que o avaliaria. O Estado requerente teria de mostrar que residiam naquela área um número de cidadãos seus tal que a construção do hospital era justificada. E a probabilidade de corrupção da tal entidade seria pequena: se negasse incorrectamente a possibilidade de construção, levava-se o assunto para os tribunais; se, inversamente, permitisse a construção injustificadamente, qualquer cidadão podia levar o caso a tribunal porque não fugiria à vista de ninguém que a poucos metros dum mamarracho estava a ser construído outro mamarracho para o mesmo efeito.

"Mas Pedro, então um dos Estados fica a perder, se não conseguir construir lá o seu hospital!". Bem, poderíamos implementar um sistema de aluguer e prestação de serviços, tal como aluga a PT o cobre às outras operadoras. Outro caso seriam as escolas: os Estados teriam carrinhas para levar os seus cidadãos-estudantes às suas escolas, se vivessem longe. Quanto às estradas, não teríamos duas auto-estradas Porto-Lisboa (apesar de que neste momento só temos um Estado e já vamos na terceira...)

Estes são alguns aspectos do funcionamento dum país com Estados Concorrentes. Reparem: isto sim, é o "ultimate capitalism". É a economia de mercado aplicada à gestão de um país. A corrupção seria reduzida, porque ambos os Estados seriam geridos eficientemente (como se fossem empresas), de forma a oferecer a melhor qualidade de vida e assim atrair mais cidadãos e obter mais influência sobre o território. Obviamente, algumas coisas poderiam ser partilhadas, como a Constituição e o sistema judicial. Mas para lá disso, os dois Estados até podiam ter bandeiras e hinos diferentes, assim como os seus próprios governos e partidos políticos (que não poderiam ser comuns, se não caíamos no caso do Estado único).

Será que este conceito dogmático de Estado que temos actualmente, que assumimos ser único, intocável, inquestionável, não é apenas uma relíquia, um legado que temos do tempo da monarquia, em que o Rei era o único manda-chuva? Será que não podemos fazer um Israel-Palestina, mas que funcione? Se já se experimentou o comunismo, porque não se experimenta esta ideia?

Pensem nisso e digam o que acham que não funcionaria.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Como distribuía o seu dinheiro?

Proponho um exercício bem simples. Considere todo o dinheiro que tem disponível. Assuma que esse dinheiro é gerido por N indivíduos/entidades. Desses N, considere X que ao longo dos anos se tem mostrado um péssimo gestor, apresentando perdas consideráveis e consecutivas. Tem agora de decidir como redistribuir o seu dinheiro pelos N gestores.

Hipótese A: Entrega uma fatia maior do seu capital ao gestor X para que este recuperar das suas perdas.

Hipótese B: Diminui a fatia de X, para reduzir o impacto da sua fraca performance no resultado global, redistribuindo a sobra pelos gestores que apresentam os melhores resultados.

A ou B?

Spot Escolas do Turismo de Portugal 2010 - Estamos a procura do teu talento

Recentemente e talvez inesperadamente dois ou três amigos resolveram dedicar-se ao turismo. Seja pela gestão ou por outras formas de negócio, o certo é que o turismo, quando devidamente incentivado e explorado, pode ser factor de crescimento. Eu acredito no Turismo de Portugal. E a propósito, vem este spot publicitário, com a sempre extraordinária participação dos Be-dom, um grupo de excepcional talento, oriundos de Valongo.


terça-feira, 4 de maio de 2010

Farmácias luminosas

Este pode ser um assunto quase trivial mas que devia ser abordado.
Durante a noite, é impossível não reparar nos sinais luminosos da farmácias, nomeadamente um cruz verde feita de LEDs e com uma animação visual constante. Apesar de existir uma ou outra farmácia que usa o azul, quase todas usam o verde.
O uso indiscriminado destes sinais luminosos não só é enganador como perturbador. É enganador, uma vez que estão ligados toda a noite, independentemente da farmácia estar de serviço ou fechada. É perturbador, uma vez que podem ser confundidos com os semáforos, especialmente em ruas com passeios estreitos em que os semáforos e as cruzes ficam praticamente alinhados. Para além disso, é uma clara poluição visual.
Penso que as farmácias deveriam desligar as cruzes luminosas a partir do momento que fecham, podendo manter as montras iluminadas, tal como qualquer outra loja. Por outro lado, as farmácias de serviço teriam os sinais ligados, permitindo a sua fácil identificação. Em ruas como Costa Cabral, que têm 5 farmácias perto umas das outras, seria extremamente eficaz identificar qual delas estaria de serviço, sem ter que parar o carro e consultar os avisos das farmácias de serviço.

domingo, 2 de maio de 2010

Administradores bem pagos (II)

No artigo "Administradores bem pagos" neste blog, da autoria do Fausto, ele apresenta uma utilização da entropia para medir o grau de "justeza" dos prémios de desempenho das administrações. Aqui eu proponho uma alternativa.

O que é um bom desempenho de uma administração? Aqui está uma pergunta difícil. Numa análise de curtíssimo prazo, podem ser os lucros da empresa no ano corrente. Numa análise de longo prazo, pode ser a continuidade ou até o crescimento da empresa em termos de empregos e de sustentabilidade.

Todos nós sabemos que este drama financeiro que se vive foi criado em grande medida por uma especulação desenfreada de curto prazo, sem qualquer sustentabilidade a mais longo prazo. Há, portanto, que apostar nas avaliações de mérito a longo prazo e não a curto prazo, porque estas últimas podem potenciar desastres económicos.

Portanto, os prémios dos administradores "de sucesso" deveriam ser-lhes distribuídos ao longo de bastante tempo (dezenas de anos), e em cada ano a fatia correspondente seria reavaliada tendo em conta a evolução da empresa face às acções tomadas no passado pelos seus gestores. Deste modo, atitudes especulativas de curto prazo realizadas apenas para ter prémios chorudos à conta do desaparecimento a médio ou longo prazo da empresa, estariam condenadas à partida. O "crime" deixaria de compensar.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Quem é ela?!

Ontem, o Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações referiu-se ao Governo como sendo "uma pessoa de bem" que procura honrar os seus compromissos...

Quem é ela, Sr. Ministro?

terça-feira, 27 de abril de 2010

Viva Portugal!

Porque estamos na ressaca do 25 de Abril, da comemoração da liberdade, democracia e claro de Portugal...seguindo a linha de raciocínio do post anterior, gostava de partilhar convosco uma grande gargalhada!
Por muito que digam, não há nada melhor que a nossa Terra! Melhor? Só aos olhos dos nossos poetas:

Excerto de "A Cidade e as Serras" CAP VII:

Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de Janeiro. Cedo, de manhã, recebera, com uma carta de Madame de Trèves, um açafate de camélias, azaléas, orquídeas e lírios-do-vale. E foi este mimo que lhe recordou a data considerável. Soprou sobre as pétalas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escárnio:
-Então há trinta e quatro anos eu ando nesta maçada?
E como eu propunha que telefonássemos aos amigos para beberem no 202 o Champanhe do “Natalício” - ele recusou, com o nariz enojado.
-Ó! Não! Que horrível seca!... - E bradou mesmo para o Grilo: - Eu hoje não estou em Paris para ninguém. Abalei para o campo, abalei para Marselha... Morri!
E a sua ironia não cessou até ao almoço perante os bilhetes, os telegramas, as cartas, que subiam, se arredondavam em colina sobre a mesa de ébano, como um preito da Cidade. Outras flores que vieram, em vistosos cestos, com vistosos laços, foram pôr ele comparadas às que se depõem sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente de Efraim, uma engenhosa mesa, que se abaixava até ao tapete ou se alteava até ao teto - para quê, senhor Deus meu?
Depois do almoço, como chovia sombriamente, não arredamos do 202, com os pés estendidos ao lume, em preguiçoso silêncio. Eu terminara pôr adormecer beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grilo... Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel! E nunca eu me compadeci daquele amigo, que cansara a mocidade a acumular todas as noções formuladas desde Aristóteles e a juntar os inventos realizados desde Terâmenes, como nessa tarde de festa, em que ele, cercado de Civilização nas máximas proporções, para gozar nas máximas proporções a delícia de viver, se encontrava reduzido, junto ao seu lar, a recortar papéis com uma tesoura!
O Grilo trazia um presente do Grão-Duque - uma caixa de prata, forrada de cedro, e cheia dum chá precioso, colhido, flor a flor, nas veigas de Kiang-Sou pôr mãos puras de virgens, e conduzido através da Ásia, em caravanas, com a veneração duma relíquia. Então, para despertar o nosso torpor, lembrei que tomássemos o divino chá - ocupação bem harmônica com a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chama bailando no fogão. Jacinto acendeu - e um escudeiro acercou logo a mesa de Efraim para que nós lhe estreássemos os serviços destros. Mas o meu Príncipe, depois de a altear, para o meu espanto, até aos cristais do lustre, não conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com as molas, que a mesa regressasse a uma altura humana e caseira. E o escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, quimérica, unicamente aproveitável para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do chá entre chaleiras, lâmpadas, coadores, filtros, todo um fausto de alfaias de prata, que comunicavam a essa ocupação, tão simples e doce em casa de minha tia, fazer chá, a majestade dum rito. Prevenido pelo meu camarada da sublimidade daquele chá de Kiang-Sou, ergui a chávena aos lábios com reverência. Era uma infusão descorada que sabia a malva e a formiga. Jacinto provou, cuspiu, blasfemou. Não tomamos chá.
Ao cabo de outro pensativo silêncio, murmurei, com os olhos perdidos no lume:
-E as obras de Tormes? A igreja... Já haverá igreja nova?
Jacinto retomara o papel e a tesoura:
-Não sei... não tornei a receber carta do Silvério... Nem imagino onde param os ossos... Que lúgubre história!
Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz-doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, à moda amável da nossa meiga terra. E o meu Príncipe à mesa, percorrendo a lâmina de marfim onde no 202 se escreviam os pratos a lápis vermelho, louvou com fervor a idéia patriarcal:
-Arroz-doce! Está escrito com dois ss, mas não tem dúvida... Excelente lembrança! Há que tempos não como arroz-doce! Desde a morte da avó.
Mas quando o arroz-doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um prato monumental, de grande arte! O arroz, maciço, moldado em forma de pirâmide do Egito, emergia duma calda de cereja, e desaparecia sob os frutos secos que o revestiam até ao cimo onde se equilibrava uma coroa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais, a data, tão lindas e graves na canela ingênua, vinham traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repelimos, num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo o copo de Champanhe, murmurou como num funeral pagão:
-Ad Manes, aos nossos mortos!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

"O país do Eça"

"O país de Eça" é a descrição de Eça de Queirós, nos seus livros, do País em que viveu. As semelhanças entre o País do Sec. XIX enquadra-se no quotidiano dos nossos dias. E olhando, no fundo, Portugal não se modificou assim tanto. Aparte da modernização causada pela globalização e o desenvolvimento tecnológico, a sociedade continua mergulha em dogmas, doutrinas e numa mentalidade muito aquém do mundo.

Celebrou-se ontem o 25 de Abril, a viragem de uma nova era. Recordar Abril é relembrar o apogeu da música popular portuguesa no seu papel de dar a voz num tempo sem liberdades, é rever a emoção do povo como pais de um recém-nascido. Recordar é viver, mas também é aprender. A revolução dos cravos triunfou! Conseguimos restabelecer a democracia e reencontramos o caminho para uma nova realidade. Então questiono-vos: Passados 36 anos, terá mesmo a revolução triunfado? Não querendo questionar sobre a viragem para a democracia, mas sim a viragem da mentalidade do povo.

O que faltou, na minha opinião, à revolução foi um pequeno factor que ainda nos pena. Vivemos 48 anos numa ditadura militar, onde a população era oprimida, comandada, sem consciência nos seus actos como uma criança cujos pais têm a sua responsabilidade. Salazar torna-se para o País como esse pai, tomando conta e comandando sobre opressão. Essa opressão ainda é visível no rosto da sociedade portuguesa, o receio dos políticos, de um controlo que não existe em liberdade e é nessa consciência que o movimento falhou, a consciência democrática ou o sentido crítico. Não se molda um País em um par de dias, nem se faz uma nação em 2 anos. Ao povo não se soube ensinar o que significa voto, poder popular, república, democracia, nem se soube criar condições de punição de maneira a controlar a corrupção. Explicar-lo, em texto, torna o argumento fraco, mas é só olhar para os nossos políticos que num dia de celebração de um marco, discursam em tom eleitoral em vez de respeitarem os partidos na Assembleia da República.

A história é clara e irrefutável. Camões retratou, através do "Velho do Restelo", a euforia do povo em busca de riqueza; Gil Vicente, pai do teatro português, representou a falsidade das promesas dos governantes e a mentalidade; Eça de Queirós contou-nos, em histórias, as tentativas de imitação falhadas da sociedade; Ary dos Santos cantou, em prosa, as angústias do povo na procura da liberdade.
Na nossa história há sempre um factor em comum: corrupção, e não basta punir nem banir, mas sim ensinar a mudar. E por sermos humanos e fracos erramos quando falamos que os ideais de Abril concretizaram-se. Afinal ainda estamos bastante longe dessa "utopia".

Na canção "O País de Eça" de Ary dos Santos (http://www.youtube.com/watch?v=9uPIX6-6I1o) no final canta-nos assim:
"Há cem anos que eu canto esta canção/sem cabeça porém no coração/porque um país do Eça de Queirós/ainda é o país de todos nós"

Relembrar Abril é recorda, é viver, é sonhar. Este é o País do Eça, do Fernando Pessoa, do Ary, do Camões. Este é o nosso País.

sábado, 17 de abril de 2010

Subsídio de Desemprego + Serviço Cívico = Emprego Cívico

O desemprego é um flagelo social e actualmente afecta quase 1 em cada 5 portugueses. É sem dúvida um problema de difícil solução que estará no topo da agenda deste governo e do próximo que virá. Para além do impacto que tem na economia global do país, o desemprego é causa de grande parte dos problemas sociais.

Na minha opinião não existe nenhuma solução que efectivamente diminua o desemprego a curto prazo. No entretanto é necessário apoiar as pessoas que por motivos alheios (falência, doença, problemas familiares, etc.) ficaram sem o seu trabalho e não conseguem ou não podem no imediato encontrar outro. A este grupo de pessoas é essencial o subsídio de desemprego.

Nenhum conjunto de regras ou deveres é perfeito ou infalível e o nosso sistema de atribuição de subsídios não foge à regra. Tenho observado um grande número de pessoas que usam o subsídio de desemprego indevidamente. Um exemplo típico é o do acordo do despedido: O patrão e o empregado acordam numa rescisão "amigável", sem indemnização, mas com direito a despedimento que será usado posteriormente para requerer subsídio. Este tipo de acordo ocorre principalmente no sector industrial. O patrão fica satisfeito porque o empregado era pouco produtivo ou redundante. Por seu lado o empregado já estava a ficar farto do trabalho e um descanso vinha mesmo a calhar.

Neste tipo de situações acredito que responsabilizar o patrão é a solução mais correcta. Uma parte da indemnização que um empregado tem direito quando é despedido deveria ser usada como subsídio de desemprego caso este necessitasse. Assim o patrão, caso decidisse entrar com o despedimento, seria responsável por pagar, por exemplo, os primeiros 3 meses do subsídio de desemprego. Desta forma o "acordo do despedido" traria desvantagens para o patrão e não se concretizaria. Desta forma haveria uma maior selecção do número de pessoas no subsídio, para não falar num aliviamento financeiro nas contas do estado.

Para aqueles que realmente necessitam do subsídio, penso que deveria se instituir um novo termo: Emprego Cívico. Porque desemprego é uma palavra muito carregada e trabalho comunitário dá ideia de reformatório eu proponho uma nova definição. Não se trata de dar uma lição aos desempregados, pobres ou aos mais desfavorecidos. Trata-se de uma contratação em tempo parcial para a realização de diversos trabalhos em instituições públicas. Este tipo de trabalho não deve dificultar a procura de um novo emprego e serviria para o desempregado se sentir útil e justificar o apoio que a sociedade lhe presta.




sexta-feira, 9 de abril de 2010

Administradores bem pagos

Quando a comunicação social tenta atacar os administradores de empresas públicas por receberem milhões de euros num ano, os seus argumentos falham e soam a oco. Afinal os administradores cumpriram e excederam os objectivos. Como é que é possível argumentar esse facto?
A realidade é que é possível analisar do ponto de vista de científico o que é um salário justo, desde que se tenha a métrica adequada. No artigo New theory on fairness in economics targets CEO pay, a entropia é usada para medir a justiça do salários dos CEO, nomeadamente comparando a razão entre o salário do CEO e o salário mais baixo na empresa.
Esta simples métrica tem implicações fortes em relação à estabilidade e sustentabilidade económica da empresa, uma vez que limita os riscos desnecessários em troca de um bónus chorudo.
A análise no artigo aponta para que um salário ideal de um CEO se situe entre 8 e 16 vezes o salário mais baixo da empresa.
Por tanto, da próxima vez quiserem argumentos contra os salários de milhões, basta pergunta quando é que ganha o trabalhador com o menor salário da empresa.
Como referência, o artigo aponta para razões médias de 11/1 no Japão, 15/1 em França, 2o/1 no Canadá e 344/1 nos EUA.

quarta-feira, 31 de março de 2010

E o barquinho?

"Isto só visto"!!

Onde andará o barquinho?? Haaa desculpem, submarinos que o então ministro da defesa, Paulo Portas, comprou. Mas onde estará esse submarino? Acredito que esteja algures no fundo do mar, ou preparadíssimo algures para um caso de ataque ao Estado Português, ouuuu nunca foram fabricados. Só que os governantes foram incapazes de verem que em caso de ataque o povinho corria para Espanha. Estavamos preocupadíssimos com uma guerra que não provocamos e bota comprar armamento militar. E esbanjar dinheiro público parece que é uma competição no País, Ora roubo eu, ora roubas tu!

Só podemos satirizar nestes momentos e banalizar o texto para dar a impressão de gozo. O sr. Paulo Portas torna-se Ministro da Defesa com a coligação PSD/CDS-PP e, entretanto, começa a Guerra do Mr. Bush. O Sr. Portas, na sua inocência, pensou: "Eh pah isto só visto. Vamos comprar umas coisitas usadas ao Mr. Bush para a protecção da Pátria."
Surpreendentemente, no "Judas ass", os radicais islâmicos pensaram:"Ramanbashyxada, vamos atacar Portugal. Vamos criar o factor supriseeee." Entretanto, passam-se anos e nem ataque nem submarino. E o "investimento fundalmental" utilizado num negócio negro, negócio negro porque era a Condolence Rice que fez o business, e em supostos financiamentos à terceiros. Sinceramente, isto é notícia em Portugal??? Qualquer pessoa, em total controlo dos sua mind, já terá questionado: Mas, afinal, o submarino? E vivemos todos de bem com vida a pensar o que vamos comer amanhã enquanto o governo gasta fundos públicos com problemáticas que talvez nunca irão acontecer.

Desculpem-me, mas esta história do barquinho passa-me ao lado. Porreiras são as histórias da comissáo de ética e do caso face oculta... Isso é que dá pica!

Agora o que choca, e será essa a razão porque quero ser política, é pagarem, aos deputados, 69,19 euros por dia por viverem fora da Grande Lisboa. Aconteceu um caso parecido aqui no governo de Gordon Brown com pagamentos de rendas de casas, de compras, etc. E foram forçados a demissão. Quem não se recorda da MP que pedia para pagarem a conta da Sky Tv e dos filmes pornos arrendados no videoclube. Afinal era o homem o tarado, será?

sexta-feira, 26 de março de 2010

Portugal, Portugal!!

Em primeiríssimo lugar, gostaria de agradecer ao Rui pelo convite e começo, desde já, a falar sobre a notícia do ano em Portugal: Plano de Estabilidade e Crescimento.

A abstenção do Partido Social-Democrata, nesta passada quinta-feira, está a ser visto como uma posição negligente da situação que poderá colocar o País.
Falar na abstenção como uma forma de estabilidade política é intolerável. O País pode estar perto de uma crise política, mas essa crise já atingiu há muitos anos o Partido Social-Democrata. O pedir de um voto por parte deles não é mais do que pedir que façam o dever deles, enquanto representantes do povo na Assembleia da República. Sinceramente, como cidadã portuguesa, penso que o PSD passa a não ter valor político em qualquer matéria, pois abstenção é um voto nulo, mas tem poder, ou não sejam eles a 2º maior força política portuguesa. Abster-se significa um olhar de fraca e cobarde acção de um partido em decadência e espero, com agrado, ver um partido diferente e com outra tendência nas mãos do próximo presidente do Partido, que julgo ser Sr. Passos Coelho. Ler: "Espero que não conduza o país a um desastre ainda maior" da dr. Manuela Ferreira Leite é um simples apelo a dizer, se tivesse calada, agradeciamos!

Gostaria de compatilhar um site do diário económico sobre o PEC: http://economico.sapo.pt/noticias/o-pec-em-5-minutos_83483.html .

Breve serei nas minhas palavras, porque discutir já se tornou um pouco repugnante e não direi vergonhoso, pois excedo-me nas palavras. Ver um plano, questionado pelo próprio Partido Socialista, a ser aprovado revolta-me. Não vejo o principal que, de facto, deveria estar em causa: a estabilidade social. As propostas do plano são propostas anti-sociais e basicamente com uma visão economista. Falar em cortes de apoio social num momento de crise só vai trazer revolta no seio da população portuguesa, essa revolta vai trazer contestação, para não falar de outros cenários negros. Pergunto-me para quando uma reforma da segurança social? Retirar apoios sociais como o subsídio de reinsercção social e de apoio aos jovens é cruel. Questiono-me, em Londres, senão haverá alguma mente brilhante no País? Compreendo a visão do governo na tentativa de "limpar" as contas do subsídio de desemprego e tentar "empregar" à força a população, somente não vejo a conseguirem.

O mais irónico de tudo é o não haver cortes orçamentais nem poupanças até 2013, ou seja, gastar o total do PIB. Vamos vender o património do País a procura de uma estabilidade económica, com ideia a mudar a tendência das agências de rating para atrair investimentos externos. Ora a questão que coloco é esta: Como querem abrir caminhos aos investimentos externos quando pedimos altissímas taxas nas tributações? A chamada tributação das mais-valias vai ser uma coisa fenónemal pois os bancos têm planos de investimento a longo prazo para os seus clientes, que aliás são os mais rentáveis em bolsa para as 2 partes. Bom, aviso desde já que isso não vai ser aprovado, é que nenhum banco aceitará esta imposição.

Sejamos capazes de admitir o nosso erro! Portugal arrasta uma crise económica há mais de uma década. Vivemos assim desde o segundo mandato do Cavaco Silva e pergunto-me senão terá passado tempo suficiente para se ter mudado. Retorno a este pensar: Haverá acontecido a Revolução? Questiono: Houve evolução na sociedade portuguesa? Podemos ter evoluído tecnologicamente e recuperado, um pouco, o atraso face a Europa e ao Mundo, mas para a maioria da sociedade portuguesa pensamos na política como no tempo do regime. Apesar de tanta evolução, a indeferença da população face a política não mudou radicalmente e não nos interessamos pelo nosso futuro.

Que bons ventos te suprem, Oh Portugal, porque o teu futuro é negro! Deve ser o nosso fado!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Duplo Saneamento

No programa especial sobre o PEC que passou ontem (dia 24 de Março) na SIC, após o Jornal da Noite, José Gomes Ferreira levantou e bem a questão de "Porquê fazer mais uma ponte sobre o Tejo nesta altura, se nem a Vasco da Gama atingiu a lotação máxima?". Concordo: avançar agora para tal construção não seria mais que um sinal de novo-riquismo.

Mas manda a primeira lei da demagogia que o investimento nas obras públicas se faça como método a curto-prazo de diminuir o desemprego. Ora, todos sabemos ser este um expediente que conduz a emprego precário e de curto prazo, e que em pouco ajuda a economia estrutural do país a não ser para enriquecer os barões da construção civil.

Dando agora uma volta de 180º ao assunto em questão, e independentemente de ir falar sobre Sócrates (pois o mesmo raciocínio poderia ser aplicado a qualquer outra pessoa), proponho uma pequena reflexão sobre estratégia política, tanto pessoal como para o país real. Todos sabemos que José Sócrates enfrenta hoje em dia uma tremenda crise de credibilidade, e sem dúvida que, por muitos anos, mesmo vindo o Carmo e Trindade abaixo, haverá sempre alguma comunicação social nunca deixará de ir procurar os podres no armário. Mas enquanto o passado não pode ser re-escrito, um futuro é uma página em aberto.

A minha premisa, neste momento, entrego-a numa linha: Sócrates podia aproveitar esta altura de crise como o momento ideal para apostar na re-estruturação do tecido empresarial fundamental do país. Os benefícios são tanto para Sócrates como para o país:

Já que a crise está a impôr um saneamento no tecido industrial, o desemprego continua a crescer e socialmente a coisa não pode piorar muito, eis-nos chegados à, como dizia Churchill no auge da Batalha de Inglaterra, "our finest hour". É a altura ideal para aplicar medidas de fundo, que não têm necessariamente de implicar grande peso aos cofres do Estado, para tentar garantir que a recuperação a longo prazo se baseie no crescimento de uma economia estrutural minimamente bem definida, e não recorrendo ao típico expediente de curto prazo das obras públicas.

Sócrates, em contrapartida, saneava a sua reputação, começando a cultivar a ideia de não ser permeável quer à tentação fácil de apostar em obras públicas, quer à influência dos já mencionados "barões", e de ser capaz de pensar o futuro do país com, pelo menos, uma grande reforma a longo prazo. (Suponho que seja isso que faz um grande estadista neste país: o ser capaz de olhar para além do imediato.) Além disso, a apresentação de propostas minimamente razoáveis de apoio à indústria nunca contaria com grande oposição dos restantes partidos, e creio que aumentaria o tempo de vida da actual legislatura.

Claro, as perguntas impõem-se. Primeiro, que medidas? Bom, não tenho resposta para isso, mas presumo que os empresários tenham uma ou duas sugestões. E em segundo lugar: ainda que a proposta faça algum sentido, Sócrates tem margem de manobra para tal? É que, bem sei, os meandros da política são intricados e Sócrates não chegou a primeiro sem fazer compromissos com gente importante. Além disso, os frutos a curto prazo desta estratégia são insignificantes e, mesmo caindo o governo agora, não estou a ver Sócrates com grandes dificuldades em ser Presidente da República daqui a 10 ou 15 anos (talvez menos). Por isso ele não tem grande motivação para se dar a este trabalho.

Sem dúvida é a cultura da influência que está a minar a Democracia e o objectivo último desta em desenvolver o país.

terça-feira, 23 de março de 2010

O sobe-e-desce dos impostos

Afinal com o PEC os impostos sobem ou descem? Ou ficam na mesma?

Qualquer pessoa que entenda minimamente como é cobrado o IRS sabe que o mesmo varia todos os anos por causa de inúmeros pormenores. O IRS muda por causa do ajuste anual dos escalões, por causa do ajuste dos tectos dos benefícios fiscais, por causa do desajuste na variação do nosso salário face à variação dos escalões … e por muitas mais razões. Portanto, alterar os tectos dos benefícios fiscais altera objectivamente o IRS, mas, mesmo diminuindo os mesmos, basta que o aumento dos escalões seja superior ao aumento do ordenado para que as alterações sejam opostas … e aí, cada caso é um caso.

Para bom entendedor, a mensagem de que “os impostos não mudam” significa que o modelo base de taxação não muda, nomeadamente no IVA, no IRC e na gasolina, como forma de não penalizar a retoma económica, mas que são repensados os benefícios fiscais que, em certos casos, convenhamos, não fazem qualquer sentido.

Em Portugal existe muito a tendência para a regra geral (o escalão de IRS) e a excepção (o benefício fiscal). O parque de estacionamento público com lugares reservados para os que se consideram “excepção”. A cunha. Os N sub-sistemas de tudo e mais alguma coisa (saúde, reforma, etc.). Quem tem uma excepção está acima dos demais, tem um olho em terra de cegos.

O resultado das excepções é que torna o sistema caótico em termos de justiça social. Como é que eu posso comparar o vencimento de um funcionário público que tem ADSE com o de um qualquer trabalhador sem qualquer sistema de apoio na doença para além do SNS? Como é que eu posso conviver com idades de reforma diferentes para a Função Publica e para os demais? Quanto vale, em termos de vencimento, o facto de um Funcionário Público não poder ser despedido?

Por isso, defendo que, a prazo, todos os benefícios fiscais deveriam desaparecer, dando lugar a um ajuste nos escalões do IRS. Cada qual sabe onde melhor gasta o seu dinheiro, e o Estado não tem de beneficiar esta ou aquela excepção feita por opção própria. A única excepção, que não vejo como benefício fiscal mas antes como algo que faz sentido à luz do espírito do SNS, são todas as despesas com medicamentos (mas não com médicos), que deviam poder ser integralmente deduzidas (nota: para os que não o sabem, os preços dos medicamentos, em Portugal, não são arbitrários).

O Nome da Rosa

O brilhante romance homónimo de Umberto Eco gira em redor de um encontro onde se discutirá uma questão pertinente para o poder da época: Cristo era, ou não, dono das suas vestes? A questão, mais subtil, está relacionada com o poder temporal e a ostentação da Igreja, que os monges mais despojados repudiavam. Face a todo o drama que entretanto acontece na Abadia onde foi agendado o encontro (suicídios, favores sexuais, perseguição do Santo Ofício, mortes na fogueira, acesso a livros proibidos, incêndio na biblioteca), ficamos com a sensação que o motivo da reunião é demasiado insignificante e irrelevante para os problemas que, de facto, existiam e careciam de atenção.

Na nossa sociedade passa-se, neste momento, algo de similar. Os partidos da Oposição resolveram criar uma Comissão de Inquérito para averiguar um facto, para eles, de superior relevância: se o Primeiro-Ministro sabia ou não do plano da PT para comprar parte da Prisa e se, portanto, mentiu ao Parlamento quando questionado sobre esse seu conhecimento (que negou).

No entanto, a questão é irrelevante. Um Primeiro-Ministro pode conhecer muita informação que não divulgará nunca a um Parlamento quando questionado sobre a mesma. Um Primeiro-Ministro não é um cidadão normal, é um cidadão que tem acesso a fontes de informação que outros não têm por inerência do cargo. E o Parlamento não tem o poder para que o Primeiro-Ministro lhe divulgue o que conhece com requisitos de reserva de confidencialidade; mais a mais, a história encarregou-se de mostrar o quanto os nossos parlamentares foram diligentes a divulgar a informação confidencial que lhes foi confiada por um membro do Governo (divulgação da lista de membros da Secreta Militar fornecida por Veiga Simão).

A questão não deveria ser, portanto, se o Primeiro-Ministro conhecia ou não o plano. Porque se conhecia, não devia fazer uso da mesma para influenciar a PT, porque a PT é fundamentalmente uma empresa privada e essa influência seria intolerável. Se não conhecia, nada podia fazer. Portanto, quer conhecesse, quer não, a questão é irrelevante, porque em qualquer dos casos nada deveria fazer até que o Governo fosse chamado a pronunciar-se sobre a compra, ou seja, para saber se fazia valer ou não a sua Golden Share para impedir a compra.

Portanto, a questão deveria ser: a decisão da compra da Prisa pela PT teve ou não origem no Primeiro-Ministro ou no Governo? Porque se foi, aí sim, houve uma clara manipulação da PT para fins pouco claros. Mas, como costume, não é isso que se pergunta e não é isso que se quer saber, porque o que interessa é "telenovela". E, de preferência, rasca.

Fechando a analogia, a pergunta correcta n’O Nome da Rosa deveria ter sido: será que fazia sentido a Igreja ter tanto poder temporal e investir em tanta ostentação, quando tal não foi a mensagem de Cristo, tendo mesmo ido em sentido contrário? Mas, lá como aqui, fez-se a pergunta errada.