quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Sobre a desistência da Nissan
Creio, no entanto, que a desistência da Nissan é uma amostra clara de que deixou de ser atrativo investir em Portugal. Com a eletricidade cara e futuramente ainda mais cara, com IVA a 23%, com as ex-SCUTS a serem pagas e a preços exorbitantes, com os portos demasiado caros para a sua qualidade geral, onde é que Portugal é atrativo para investimentos deste género? Já pensaram em quanto não aumentou, desde que foi previsto, o custo de produção e escoamento dessas baterias?
Não é com a ½ hora a mais de trabalho por semana e a abolição dos feriados em dias úteis que se vai convencer empresas como a Nissan a virem para Portugal. É mesmo preciso apresentarmos custos competitivos e infraestruturas eficazes. Infelizmente, nada aponta nesse sentido. Quem sabe, quando a Auto-Europa nos deixar, alguém abra os olhinhos para ver o que é óbvio.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Sobre a alteração dos feriados
O 10 de Junho é uma data estranha, desde 1933 que já foi de tudo -- dia de Camões (que morreu nesse dia), dia de Portugal (porque assim o decidiu Salazar), dia da Raça (idem), dia das Comunidades Portuguesas . Chegou mesmo a ser feriado de Lisboa, após 1910.
Proponho que se esqueça o 10 de Junho e se comemore o Dia de Portugal no 5 de Outubro. Com efeito, foi nessa data que Portugal foi oficialmente reconhecido como tal (dia da assinatura do Tratado de Zamora, em 1143) e foi o dia em que foi instituída a República (em 1910). É um duplo acontecimento com grande significado: formação do Estado e instituição da República, o nosso regime atual (e, espero, futuro).
Cortes estruturais
Isto, no entanto, já só é uma novidade para os mais distraídos, porque o ministro Miguel Relvas já tinha deixado claro que os povos desenvolvidos, do norte da Europa, ganham 12 ordenados por ano, enquanto que os incumpridores do sul ganham (ou ganhavam) mais de 12 salários. Nesse seu discurso ele deixou a mensagem subliminar de que a era dos 14 salários tinha de acabar (ou acabado) para bem do progresso do país. É preciso ser muito pobre de espírito para fazer raciocínios deste tipo. Pessoalmente, até prefiro 12 salários, mas essa não é a questão: o que interessa, como é óbvio, é o que se ganha ao longo do ano e não em quantas fatias (tranches, gostam eles de dizer…), esse montante é libertado.
O que é verdadeiramente fenomenal é o truque: corta-se os 2 meses com o argumento de redução de 15% dos salários, depois argumenta-se que o que é bom é 12 salários e depois, como é evidente, não se repõe os salários brutos anuais no valor que tinham antes do corte de 15%.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Trambiquices "made by" Troika & friends
Não deixa de ser revoltante constatar que diversos líderes de países inequivocamente democráticos da Europa subitamente acham que, para os Gregos, a democracia é um problema e não deveria ser usada. Como disse Churchill, “Democracy is the worst form of government, except for all those other forms that have been tried from time to time.”. É perfeitamente legítimo que os Gregos escolham o caminho que querem trilhar. E se esse caminho for o do incumprimento, o da saída do Euro e o da saída da União Europeia, seja. Mas não lhes digam que não podem ouvir o povo e que tudo tem de ser imposto pelos credores, ou por terceiros que falam em nome dos credores.
domingo, 30 de outubro de 2011
Sobre a “morte” dos caminhos-de-ferro
Hoje, porém, temos diversos tipos de veículos pessoais, a combustíveis fósseis, elétricos ou híbridos, que andam mais rápido do que qualquer comboio em Portugal (sim, mesmo quando este atinge 220 Km/h). Para além disso, a grande maioria das pessoas possui, na sua família, um ou mais automóveis ou outros veículos motorizados. Finalmente, as estradas espalharam-se por todo o país, modernizaram-se e há uma rede de autoestradas considerável.
Perante este quadro, em que situações fará sentido usar um comboio ou fará sentido tentar convencer as pessoas a usar um comboio? A meu ver, há duas apenas; tudo o resto é folclore.
A primeira é a longa distância rápida, tal como temos entre Lisboa e Porto. São comboios com uma frequência razoável (podia ainda ser melhor) e que fazem um trajeto de horas a uma velocidade igual ou superior à da autoestrada. São competitivos face à autoestrada porque permitem a uma pessoa usufruir da viagem para fazer algo de útil (o que é difícil quando se conduz), e, se as viagens forem a um preço baixo relativamente ao gasto numa viagem similar de automóvel (gasolina + portagens + desgaste veículo), mesmo que não se chegue exatamente onde se quer e à hora que se quer, a relação custo-benefício-cansaço pode ser interessante. Mas há duas questões essenciais: custo e frequência. Se o primeiro for muito alto ou a segunda muito baixa, a procura irá imediatamente fugir para o automóvel, mesmo à custa de um maior cansaço.
A segunda é a curta/média distância suburbana. Esta é vital para a sobrevivência das grandes áreas urbanas, para não serem diariamente inundadas por automóveis. Nestes casos o comboio surge como uma alternativa interessante por ser tipicamente uma oferta de alta frequência e que permite um deslocamento no tecido urbano mais rápido que o automóvel. Mesmo que não seja rentável face ao que os utentes pagam por ele, é um custo inevitável se se pretender ter metrópoles de média/grande dimensão com um mínimo de qualidade de vida.
Em todos os outros casos, não há hipótese. As linhas de média/baixa velocidade não são competitivas face ao automóvel e às novas estradas, o que leva à diminuição da frequência das composições e à opção pelo serviço que à partida melhor rentabilidade parece dar (o que para em todo o lado), mas esse, por esse mesmo facto, perde passageiros porque se torna demasiado lento face ao automóvel. Por outro lado, o investimento em velocidade com uma frequência baixa é suicida porque dispara os custos sem contrapartidas de bilheteira (porque nunca se tem o comboio quando se quer). A relação procura-oferta nestas linhas entra numa espiral recessiva onde os custos vão sempre aumentando até que chegamos ao paradoxo de ter um mínimo de comboios para um número residual de utentes, com tudo o que isso custa em manutenção de material e via e custos de pessoal. Foi o que aconteceu com a linha do Oeste, há muito virtualmente morta e inútil para além da linha de cintura de Lisboa.
Ou seja, concluindo, o transporte público, para ser procurado, tem de ter uma alta frequência, para dar a sensação a quem o usa de que não perde tempo à espera. Por outro lado, para cobrir o custo de fornecer essa frequência, é preciso que a procura seja naturalmente muito grande. Se não se fornecer uma grande frequência e não houver uma grande procura, ele torna-se economicamente inviável. E, na penúria em que estamos, não faz sentido, não é possível, continuar a esbanjar dinheiro num meio de transporte que, na maior parte dos casos, serve apenas para o transporte dos seus funcionários.
A maior parte destas linhas inúteis, porém, tem um potencial turístico enorme, mas não necessariamente como vias férreas: como ciclovias. Como têm declives suaves, são ideais para fazer ciclovias, como acontece atualmente na antiga linha do Dão (Santa Comba Dão - Viseu) e numa parte da linha do Vouga (Sernada do Vouga - S. Pedro do Sul). E as antigas estações e apeadeiros podem ser facilmente transformadas em locais de repouso, bares, lojas, ou mesmo pontos de aluguer de veículos para usufruir da ciclovia.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Sem dinheiro, não há milagres
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Plano Nacional de Barragens
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Era uma vez um guru
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Genéricos
A prescrição por princípio ativo (ou prescrição por Denominação Comum Internacional, DCI) parte do princípio que um medicamento original e os seus genéricos podem ser igualmente receitados, bastando para tal referir o princípio ativo, a dosagem e a forma. No entanto, todos os intervenientes no processo sabem que os genéricos não são iguais aos originais e são mesmo diferentes entre si, o que origina situações caricatas de marketing.
Uma situação interessante é aquela que leva a que uma marca dona de um medicamento original crie um genérico do mesmo medicamento para competir no mercado de genéricos do princípio ativo desse mesmo medicamento. Atualmente as grandes empresas farmacêuticas estão a criar marcas alternativas para criar genéricos, tanto dos seus medicamentos como de medicamentos dos concorrentes. Parece um pouco estranho, mas é fruto da estratégia de preços: como os genéricos são vendidos mais baratos do que os medicamentos originais (e os preços são acordados com o regulador), o genérico que sai da mesma empresa que o original sempre serve para estancar a fuga das vendas para a concorrência.
É aqui que começa, então, a chamada prescrição de genéricos de marca. Um genérico de marca não é mais que o genérico fabricado por uma determinada empresa. Esta tanto pode ser a dona do medicamento original, como não ser. A prescrição por genérico de marca é uma aberração nos seus princípios, porque se faz sentido a existência de genéricos e a prescrição por princípio ativo, então não faz sentido prescrever explicitamente o medicamento original ou qualquer um dos seus genéricos em particular. No entanto, as farmacêuticas não se coíbem de publicitar a qualidade dos seus genéricos em detrimentos dos demais, o que é absurdo, porque em princípio genéricos e originais deveriam ser todos iguais.
Conclusão? Deixo ao vosso arbítrio, mas para mim é claro que (i) os genéricos são naturalmente medicamentos menos testados do que os originais e os médicos que os prescrevem normalmente não possuem indicadores fiáveis da sua eficácia relativamente ao original, (ii) a exploração dos genéricos é fundamentalmente uma estratégia para reduzir os custos dos serviços de saúde à custa da qualidade do tratamento e (iii) o marketing que antes era exercido pelas farmacêuticas ao nível dos médicos, para os orientar na prescrição dos seus medicamentos, será futuramente dirigido para os canais de venda e distribuição, por serem estes que passam a ter possibilidade de influenciar a escolha do paciente.
A médio prazo, temo que a estratégia dos genéricos “mate” a inovação da indústria farmacêutica, porque deixa de ser rentável descobrir uma molécula que seja um sucesso. Basta esperar que alguém o faça, para depois copiar e fabricar o genérico. Mas se todos pensarem assim, todos ficam à espera e nada acontece. Faz lembrar a história em que o professor dava a mesma nota a todos os alunos, sendo a mesma calculada como a média da turma. A nota, como é óbvio, foi baixando gradualmente porque todos deixaram progressivamente de trabalhar, contando apenas com o esforço dos demais. E o sistema convergiu para a nulidade.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
iRIP
Steve jobs não era um guru da informática, como eu ouvi. Não concordo de todo com essa afirmação. Que me recorde, não há nenhum avanço significativo em termos informáticos, daqueles que nos mudam a vida, que se deva a Steve Jobs ou à Apple. O sistema de janelas, usado no MacIntosh, foi inventado pela Xerox, juntamente com o rato. O empacotamento de músicas em iPods, com carregamento via iTunes, não incorporou qualquer avanço tecnológico (o MP3 já existia). A utilização de interfaces sensíveis ao toque também na apareceu com o iPod, iPhone ou iPad, já existia.
Já agora, o que é que eu considero como avanços relevantes na área da informática, que mudaram a forma de encarar a informática e os serviços que dele dependem? Os conceitos base da Internet, os computadores portáteis e os avanços relacionados nas arquiteturas, as redes sem fios 3G e Wi-Fi, o HTTP e a World-Wide Web, o conceito de PDA criado pela Palm e o sistema operativo dedicado que inventaram para esse fim, o Google, a virtualização, que permite correr vários sistemas simultaneamente sobre o mesmo hardware, etc.
Afinal, em que é que se destingiu Steve Jobs, na área dos computadores?
Era, em primeiro lugar, um adepto fervoroso dos sistemas fechados, e é hilariante ver antigos fanáticos anti-Bil Gates e anti-Windows rastejarem submissos aos pés de quaisquer iTretas. E, mesmo nesses sistemas fechados, nenhum deles teve qualquer futuro em termos de plataforma de referência.
Era, sobretudo, um mestre do marketing, que percebeu que o seu nicho estava em gadgets caros e cujos serviços extras rendessem dinheiro à Apple. Os iGadgets não são mais do que isso, são brinquedos muito caros, perfeitamente dispensáveis, mas que se vendem por causa de algo muito forte: a vaidade e o interesse em mostrar a diferença, em demonstrar que eu posso e tu não, que eu pertenço a uma elite que tem um iGadget e tu não. Steve Jobs percebeu muito bem que se envolvesse alguma tecnologia decente num brinquedo com excelente estética, se o vendesse com um rótulo de uma marca de nicho (a Apple) e se o fizesse caro (o fruto proibido, neste caso por causa do peço, é sempre o mais apetecido), então tinha o seu futuro assegurado. É, no fundo, a estratégia Bang & Olufsen. E, claramente, a estratégia resultou. E vai continuar a resultar, porque a vaidade e o elitismo é algo que nunca desaparece. Nem em tempos de crise.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Segurança social é um esquema em pirâmide
Claro que o artigo também menciona que o valor dos pagamentos enquanto trabalhador ou pensionista pode ser ajustado para garantir a sustentabilidade da segurança social, conhecido em Portugal pelo fator de sustentabilidade.
No entanto, o problema é que a segurança social só é verdadeiramente sustentável com o esquema atual quando a população tem uma taxa de crescimento positiva e uma esperança média de vida perto da idade de reforma.
Ao longo destes anos todos, governos sucessivos descapitalizaram a segurança social, uma vez que aquilo era uma máquina de fazer dinheiro. Só que na realidade, a descapitalização transformou o que seria um fundo de pensões público, num esquema em pirâmide em os trabalhadores atuais suportam os pensionistas em vez serem a poupanças dos mesmos a suportá-los.
Para ver como o sistema é insustentável, imaginemos que a segurança social passava a ser opcional para novos trabalhadores a ingressar no mercado laboral e, num caso extremo, nenhum trabalhador aderia à segurança social. Os trabalhadores que ainda pertenciam ao sistema, passariam a suportar um número crescente de pensionistas até ao limite de estar um trabalhador a suportar todos os pensionistas do país.
Se o sistema fosse gerido como um fundo de pensões, um trabalhador receberia a sua pensão para a qual tinha descontado e, contando com a mortalidade e a esperança média de vida, a sua reforma seria superior à soma de todos os descontos já contabilizando os rendimentos obtidos pelo fundo. Na pior das hipóteses, ou seja, se de um momento para outro deixassem de entrar novos trabalhadores, a sua reforma seria apenas a soma de todos os descontos e rendimentos.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Uma questão de coragem
sexta-feira, 24 de junho de 2011
As propostas do Costa Rochosa
Vivemos uma época de mudança e acção. É o momento ideal para iniciar esforços para cumprir a promessa de voltar à construção e deixar os bulldozers de lado. Mas como ainda estou de forte ressaca das eleições passadas, limitei-me a recordar o que até aqui foi proposto neste blog.
- Eleitores fantasma
- Por uma representação mais justa
- A lógica da indemnização por despedimento
- O mercado e a gasolina
- Um regime de pensões Simplex
- A Teoria dos Estados Concorrentes
- Como distribuía o seu dinheiro?
- Administradores bem pagos (II)
- Subsídio de Desemprego + Serviço Cívico = Emprego Cívico
- O sobe-e-desce dos impostos
- Ética, lei e a violação do segredo de justiça
- O meu Estado
- Croudsourcing para estradas mais ecológicas
- Ensino de qualidade
- Abaixo os feriados!
- Sistema de votação para o parlamento
- Uma Ordem! Uma verdadeira Ordem de Professores!
- Sugestões para começar a caminhar num sistema de ensino diferente
- Qualidade de ensino, avaliações dos professores e exames nacionais
- Arbitragens, selecção dos árbitros e avaliação dos árbitros
- Um sistema de propinas baseado no mérito
- Como o amanhã poderá ser melhor do que o hoje (post que deu origem ao blog)
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Mea Maxima Culpa
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Eleitores fantasma
A Visão desta semana tem um artigo sobre os eleitores fantasma e o seu peso (virtual) nos resultados eleitorais. O tema merece reflexão, mas não nos moldes que tem sido feita. Ou seja, o foco da discussão tem sido na eliminação dos ditos “fantasmas”. Eu acho, pelo contrário, que isso reflete uma aproximação de jurista ao problema, e que nada resolve, quando o que interessa é ter uma aproximação de engenheiro, pragmática.
Há atualmente algumas eleições em que o número de potenciais eleitores tem impacto sobre os resultados finais as eleições. É o caso dos referendos, em que para serem vinculativos têm de votar mais de 50% dos recenciados. É o caso das legislativas, onde o número de deputados, por círculo, é de alguma forma ajustado, proporcionalmente, ao número de recenciados desse círculo.
A aproximação à jurista para este problema consiste em enunciar um objetivo desejável, ótimo, que consiste em ter os cadernos eleitorais corretos, sem mortos nem desaparecidos. Mas tal é complexo, no mínimo. Eu diria mesmo que é utópico e irrealista. Nem mesmo o Registo Civil sabe, em muitos casos, se uma determinada pessoa morreu ou não. É fácil determinar quando uma pessoa se pode tornar eleitora: quando, sendo maior de 18 anos, se regista como tal. Mas é muito difícil aferir a perda deste estatuto, porque isso implica uma prova efetiva que o eleitor morreu. O que nem sempre existe.
Portanto, temos de procurar uma solução para o problema segundo uma perspetiva de engenheiro, para o qual o ótimo é inimigo do bom. Nomeadamente, temos de tornar os processos eleitorais imunes aos eleitores mortos, quer se saiba ou não desse facto. Isto significa, muito concretamente, que para os resultados finais apenas podem contar os que votam e não os que poderiam ter votado. Não há outro processo.
Assim, os referendos passariam a ser vinculativos com 50% dos votos expressos, tal como a eleição de um Presidente da República à primeira volta. E os círculos contariam com um número de representantes proporcional ao número de votantes, não de recenciados. Notem que, neste último caso, isto contribuiria para desincentivar a abstenção, porque isso retiraria representatividade aos círculos mais abstencionistas, independentemente da cor vencedora.
Frases inesquecíveis
José Sócrates, 26/05/2011
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Análise psicológica à sociedade portuguesa
terça-feira, 24 de maio de 2011
O Cartão de Cidadão e a falsificação de assinaturas
O Cartão de Cidadão (CC) é um mecanismo de autenticação dito “de dois factores”: (1) o que se tem, ou seja, o objecto físico, o CC propriamente dito; e (2) o que se sabe, ou seja, o PIN que permite realizar uma assinatura, e que tem de ser fornecido sempre que é realizada uma assinatura. Para se falsificar uma assinatura de alguém é preciso, simultaneamente, (1) ter acesso ao seu CC e (2) saber o código PIN correcto. O que o texto da Exame Informática afirma, então, é que o PIN pode ser capturado por ciberpragas e que estas podem usar o CC, se ao mesmo tiverem acesso, para efectuar assinaturas fraudulentas em nome do seu dono. O que é totalmente verdade; eu diria mesmo que não é novidade nenhuma para quem sabe do assunto. Mas que também não é fácil de evitar.
Tal como está construído, o software do CC não permite que uma aplicação guarde internamente o PIN de assinatura e o use para realizar várias assinaturas sem intervenção humana (i.e. sem pedir o PIN ao dono do CC para cada assinatura). No entanto, o software pode ser subvertido de duas maneiras, ambas igualmente fáceis: (1) pode-se fornecer o PIN através da simulação de eventos do teclado para a janela de entrada de dados do software do CC ou (2) pode-se usar a interface de baixo nível de acesso ao CC, através de umas mensagens especiais denominadas APDU (Application Protocol Data Unit), cujo formato para o CC não foi publicitado mas que não é difícil de obter experimentalmente. Eu próprio já realizei, com o auxílio de trabalhos realizados por alunos, as duas formas de introdução do PIN de assinatura sem intervenção humana: a primeira para testar a robustez do CC a uma carga máxima de assinaturas (o que deixaria um humano cansado) e a segunda para realizar a introdução do PIN através de um terminal seguro externo ao computador onde se executa a aplicação que pretende obter a assinatura.
Como o software do CC usa uma interface gráfica convencional, com entrada de dados via teclado para ler o PIN de assinatura, este pode ser facilmente capturado por uma ciberpraga. E como depois pode ser usado sem intervenção humana, a ciberpraga poderá abusar do CC, caso o mesmo esteja disponível, para realizar assinaturas em nome do seu dono. Os teclados virtuais não tornariam o trabalho da ciberpraga mais complexo, uma vez que é possível obter o PIN de assinatura através da análise dos APDU enviados para o CC.
Mas será, então, que estes riscos podem ou poderiam ter sido evitados? Dificilmente. E, mesmo assim, subsistiriam problemas.
Uma solução consistiria em fazer o que um aluno meu fez: usar um leitor de CC com capacidade de entrada de dados e capacidade para executar programas à medida, os quais poderiam tratar da obtenção do PIN e do seu envio, via APDU, para o CC. Tal minimiza em muito o problema, porque (1) o PIN não pode ser capturado por uma ciberpraga e (2) cada assinatura requer sempre a introdução do PIN por um humano. Mas obrigaria ao uso do tal terminal especial.
No entanto, os problemas não desaparecem todos, nem é previsível que alguma vez venham a desaparecer. Nomeadamente, quando se realiza uma assinatura é muito difícil (impossível?) garantir ao utente que está a assinar aquilo que julga (ou gostaria de) estar a assinar. Com efeito, uma assinatura é basicamente uma transformação criptográfica realizada pelo CC sobre um valor que de síntese (digest, ou cryptographic hash) calculado a partir do documento a assinar. Mas nenhum humano consegue assegurar que o valor de síntese que irá cifrar corresponde, de facto, ao documento que pretende assinar. Logo, poderá assinar valores de síntese de outros documentos, valores esses fornecidos por ciberpragas, sem poder evitar o problema. Poderá eventualmente detectar a fraude à posteriori, mas entretanto já realizou assinaturas que não pretendia.
Actualmente, este problema cria um risco real de roubo de identidade. Mas as assinaturas manuscritas possuem muitos outros riscos, e alguns bem piores, pelo que não creio que fiquemos pior com as assinaturas digitais do que estávamos com as manuscritas.




